quinta-feira, 26 de abril de 2012

Transporte público

Em um momento contemplativo, enxergando beleza no escuro, me encantei com o aglomerado de faróis brancos e vermelhos nas pistas. Luz por todos os lados, tapete incandescente de mistério no solo duro da realidade. Algo natalino, uma piada do universo. Como um engarrafamento tão estressante poderia ter tamanha beleza para mim? Também há poesia no trânsito. A fantasia também é possível na cidade grande. 

quinta-feira, 29 de março de 2012

"Morte, que talvez seja o segredo desta vida"

Cada dia que passa fico mais certa que o sentido da vida é a própria morte. Não caminhamos para este momento, que alguns consideram definitivo, outros apenas passagem, de forma isenta. A vida consiste em morrer. Morremos todos os dias, matamos a criança que fomos, o adolescente, o adulto. Vão morrendo células, os cabelos caem mortos, a pele também. 

Morremos subjetivamente desde que nos inserimos no meio. A primeira castração simbólica, o primeiro dente que fere a gengiva e depois cai. Depois vem os amigos, perdemos amigos ao longo da vida. Ao longo das turmas no colégio, ao longo das férias de verão. Dói a morte de amigos, tanto a morte ''definitiva'' do corpo, quanto a morte da pessoa que ele foi, que te encontra 10 anos depois em um café como se fosse outra pessoa, e é. Dói, mas a gente supera. Superamos fins de relacionamentos. Superamos amores não correspondidos. Superamos aquele dia que descobrimos que nosso amor platônico preferia mesmo a nossa amiga. Superamos os motivos pelos quais já choramos no banheiro. Será que superamos?

Mas enfim, não é um texto sobre traumas e superação. É um texto sobre morte. Morremos sim, todos os dias, nada é para sempre e tudo acaba. Porque também não somos para sempre. Mudamos e mudamos muito. Talvez quando dizemos "Te amo para sempre" deveríamos dizer "Enquanto eu for assim, eu te amarei para sempre", o que não deixa de ser uma verdade. Quando você olha para trás, o seu passado tá fixo, parado naquele tempo. Se você acessá-lo, você vai revivê-lo ali. Ele está eternizado em 2000, 2007, 1996. O amor que foi vivido está preso ali e segue ali, junto com quem você era, eterno.

Seguimos descascando nessa estrada de mortes que é a vida. Seguimos aprendendo a morrer. Perdemos pessoas, objetos, segredos, sentimentos, hábitos para aprendermos a perder a nós mesmos, por completo. Para quem sabe, aproveitarmos toda vida dentro de tanta morte. E suspirar pela última vez, podendo finalmente descansar de tanta incerteza. 

domingo, 25 de março de 2012

Agora você dorme,
no ar frio que predomina em seu quarto.
E eu estou agora
sem sono,
te olhando.

Te fazendo perguntas irrespondíveis
com uma leve angústia que não sai de dentro de mim.
Você dorme com tanta paz,
eu te invejo por isso.

Será que o seu sentimento por mim também dorme?
Será que está sonhando comigo agora?

Deito para o outro lado,
retorno,
te faço carinho.
Meu corpo está incomodado
com a tranquilidade e profundidade do seu sono.

Eu que tenho andando tanto em busca de mim.
Você que parece se encontrar tão facilmente,
dormindo e sorrindo.

Eu sei que é egoísmo pensar assim,
mas é que eu tenho tanto medo disso se esvair,
como tantos outros que se foram.
Eu tenho tanto medo de você ir embora.

Ô meu garoto,
você que me sorri com esse olhar silencioso.
Você que me acaricia sutilmente,
como se fosse discreto o gostar.

Ô meu amigo,
você que esteve comigo todos estes anos,
e não foi capaz de reparar
o meu coração ansioso
pelos nossos encontros.

Não foi capaz de reparar
que era sobre você
todas as dores que chorava.

Ô minha vida,
neste mundo tão cruel e traiçoeiro
temos direito a uma trégua.
Eu não quero deixar de gostar de você.
É bem melhor do que o mundo real.

Bom dia!
Já é manhã aqui no ocidente,
onde o sol se põe por último.
Antes e depois,
é só uma questão de ponto de partida.

Estou aqui do outro lado do mundo,
outro lado é só uma questão de posição.
No meu sonho não há fronteiras.
Tudo é mundo.
Tudo sou eu,
também.

O pensamento voa leve,
são as asas que o meu corpo não sustenta.
Acho, penso, sei
sinto
tudo e nada
em preto e branco.

O cheiro da distância
em sua camisa de manga longa,
faz frio aqui nesse quarto iluminado.
De todos os lugares possíveis que há neste mundo
O mais impossível, agora, é estar com você.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ao meu redor

Esse texto nasce dos meus olhos cansados e da poluição sonora da cidade grande. Buzinas, intolerância e trânsito parado me levaram a mais doce das alienações: meu fone de ouvido e uma música aleatória. Estou cercada de burros seres humanos, caretas e paradoxais. Assistindo um sistema sucumbindo em sua própria desigualdade. São mentiras que nos aprisionam, rupturas necessárias para a liberdade. Liberdade que as pessoas acham que possuem, pura mentira! Sinto-me estranha ultimamente, com uma sensação de esconderijo, de estar fora do padrão. Será que o meu sofrimento não está notável? Porque as pessoas são tão preocupadas com a aparência? Porque elas são tão cruéis com o diferente? Cruzo com pessoas todos os dias, portas que se abrem e fecham, controladas. Muitas se perdem no hábito, muitas morrem na praia. Sonhos moldados, dedos e mais dedos na hora de escolher as palavras. Medo do outro, medo de si mesmo. Meu corpo é forte, minha mente inquieta, meu coração é do tamanho do mundo e a minha insegurança também. Não me sinto segura nessas ruas escuras, meus passos são ágeis e firmes, meus olhos atentos. Ando por caminhos que a minha intuição leva. Não me faça perguntas difíceis, não me coloque na parede, não me obrigue a ser cruelmente sincera. Minha coesão textual é confusa, minha angústia é da minha altura. Talvez o silêncio agora seja o melhor remédio.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Salvador, 11 de fevereiro de 2012.

Definitivamente fui fisgada, tive sorte e encontrei aquilo que parecia impossível: a peça do lego que se encaixa perfeitamente em mim. Simples, como uma melodia de uma nota só. Complexo, como a legião de fatores emaranhados que nos uniu. Você que sou eu; eu que sou você; dois em um único nós. Atesto que já não quero eu sem você, nem você sem mim. Case comigo!? Eu quero ser a mulher que vai te acordar todos os dias te pedindo abraço, pedindo pra você chegar para o canto, pedindo pra você acordar rápido e não se atrasar. Eu quero ser a mulher que vai dormir com a sua camisa preta com estampa de banda de rock e continuar sendo a mais linda do mundo pra você. Quando eu me perco te olhando, o meu desejo é que o tempo passe devagar. É uma tortura a forma como o tempo passa rápido quando o seu beijo arrepia a minha nuca e o seu corpo quente derrete o meu. Queria viver contemplando o seu sorriso, brincando com o seu nariz em formato de pipoca e beijando os seus olhinhos com cores de água de rio. Sabe, eu quero ganhar o mundo ao seu lado, dividindo o peso da minha mochila de 48 litros com você. Quero descobrir os vales mais lindos de mãos dadas, caminhando no seu passo e descobrindo o nosso ritmo. Quero morar com você em uma barraca de camping, acordar com o sol frio e receber o bom dia mais cheio de amor que pode existir. Quero o seu afeto para sempre! Meu amor, eu adoro ser parecida com você, adoro enxergar em você os meus defeitos. Adoro você e tudo que você faz, porque você é o homem mais encantador deste mundo. Adoro ser sua inspiração e seu escape, adoro seu colo, seu porto, adoro ser sua namorada pentelha. Sabe, eu sou completamente apaixonada pelo amor da gente.

Com amor, 

C. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A atmosfera atual tem tons de angústia e tensão. A vida está na corda bamba, a nossa falsa ideia de segurança está voltada para um espelho em pedaços, quebrado no chão, com as pontas para cima. Segurança cortante, estamos reféns de nós mesmos. Meu corpo é matéria do universo e vibra em confluência com a energia do mundo. Estou com a energia baixa, me sinto mal, descarregada, desestimulada. O mundo tem sido cada vez mais cruel e isso é apenas advertência na hora do jantar. Mariana, a sua ideia de mudar o mundo virou utopia imatura. Você que não cresceu com as árvores, você que permanece in Wonderland, de questionadora fantasia à comércio cinematográfico. Alice, Sofia, me perdoem, é que eu ando tão cansada para o conhecimento... O que eu queria mesmo era deitar numa pedra embaixo de uma cachoeira e ficar lá até o sentido perder o sentido, mente em branco, sem linguagem. A humanidade me dá apatia, paralisia, tá dando pane no meu sistema. Eu queria a liberdade que não é humana, que não é simbólica, eu que sou parte da natureza, não sinto natureza só porque eu sou capaz de pensar e falar sobre ela. Estou cansada desta hipocrisia, eu quero paz.