quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Carta para Clarice

Quando deixamos nossa marca em um texto, eternizamos a nossa alma, e dessa forma eu pude te conhecer. Nos encontramos, eu te encontrei, muitos anos depois do silêncio dos seus sentidos. No entanto, encontrei  você viva, com as inquietações mais pulsantes do que nunca. Comecei a beber da sua subjetividade bem depois de vomitar as minhas em linhas tortas. E foi um choque perceber que os desenhos das minhas letras vivas se pareciam os seus. A sua escrita fala pela minha e até o meu estilo de forma inexplicável, se parece com o seu. Mas como isso é possível, se só enxerguei tua força muito tempo depois de engatinhar na seara dos textos catárticos? Como esse encontro aconteceu com tanta afinidade e semelhança? Você é a mestra e eu humildemente ajoelho diante das suas escrituras. E de algum modo, mesmo sem conhecê-la acabo roubando sua obra sem saber que cometo um crime, sem saber sequer que tal obra existe e já possui dono. Assim como você, escrevo com o estômago, as vísceras, o útero. Escrevo com as entranhas os traços do cotidiano e talvez por isso, me identifique e te ame tanto, sem você sequer me conhecer.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pouco importa os pensamentos quando estamos correndo, ventilando o corpo.
Queria ter um pulmão gigante para captar todo ar do mundo,
de peito aberto e corpo fechado,
forte.

Não é possível conviver com tantas dores,
tantos nós, tensões e mal-jeitos no corpo e na alma.
Quero suar esses medos
essa ansiedade.

Porque me ensinaram que devo correr contra o tempo?
Porque me disseram que tenho que ser tudo ao mesmo tempo?
Meu corpo não aguenta essa doença,
o louco mundo adulto que espere.

terça-feira, 17 de julho de 2012

nada como um banho,
sentir a água gelada percorrendo as costas
limpando a dor,
anestesiando os medos.

em épocas de baixa-estima,
inseguranças,
nada como um banho
para massagear a vida.

sábado, 14 de julho de 2012

arrepender-se

A razão não comanda a fraqueza,
o verbo do ódio, o vocábulo do desespero.
Quem de nós, reprimidos,
sabe o que é passear entre os extremos sem arder?

Quando a boca fala o que o impulso quer,
verdades, distorções e mentiras se confundem.
Quando a razão sucumbe ao incêndio da mente,
o orgulho dita as regras,
o amor pula o muro
e a sensatez adormece.

O pior é não é o ato, o ímpeto, a chama
ou as palavras malditas em direção as vidraças.
O pior é o depois,
o amanhã, a boca seca,
a ressaca moral,
o arrependimento.

Como depois usar a máscara que a impetuosidade tirou?

segunda-feira, 9 de julho de 2012

desconexo

É sobre a divisa mal explicada entre o presente e o passado, o limiar dos sonhos, fantasias e do possível. Gosto de pensar em mundos paralelos, já que a decodificação do que tá posto é pessoal e perceptiva. Mundos que convivem, que se entrelaçam, que divergem. Um conjunto de palavras soltas, vazias e sem sentido me definem hoje e o que eu contemplo me acalma e me sufoca, agora.

Estive um tempo longe dos cadernos, estava mais perto de mim mesma e dos textos impublicáveis que me compõe. Sempre fui o que quiseram que eu fosse, mas, de algum modo, algo em mim conseguiu fugir das regras impostas, meio que pelo buraco da fechadura, meio por de baixo da porta, há, e eu sei que há, um esconderijo em que a espontaneidade ainda mora. 

Um texto matutino e preguiçoso sou eu agora, postergando mais um compromisso, mais uma ordem, mais uma regra, nada espontâneo, nada da ordem do impulso. Criar um futuro improvável me salva do tédio do presente. Não, não é sobre tristeza, apatia e nada disso, é sobre o viver, seus recortes e descosturas. É sobre o afastamento necessário de algo que te impulsiona, apenas para olhar de longe, para amadurecer a ideia, para amortecer a crise.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Simples assim

Hoje eu não vou sair daqui. Hoje eu não vou fazer nada que eu não queira fazer. Não vou me entregar a roda-gigante dos meus iguais, homens sapos. Hoje eu vou passar a manhã inteira agarrada em seu abraço, sentindo o cheiro da sua alma, te amando, te amando devagar e eternamente. Hoje eu vou passar o dia inteiro de pijama, te olhando, me entregando devagar e eternamente. 

Quando sentirmos fome, faremos da cozinha o nosso laboratório de alquimia. Misturaremos ingredientes no nosso ritual mágico e depois sentados no chão sentiremos cada sabor percorrendo e arrepiando os nossos sentidos. Olhando um para o outro com a cumplicidade de quem divide um segredo, uma sensação, um amor.

Depois que tomarmos banho, cuidando de cada parte do nosso corpo, acarinhando e agradecendo a matéria que instrumentaliza a nossa existência, nos despediremos com saudade antecipada, com o ardor do sentimento vivo. Você vai embora e eu decidirei arrumar as coisas. O meu cantinho, o meu jeitinho. Quanta coisa acumulada, suja, empoeirada, fora do lugar. Minha mente estava assim, desorganizada, confusa. 

Arrumar as coisas dá a falsa sensação de que é possível arrumar a vida. Controlá-la, como este texto, cheio de eventos controlados. Hoje eu só farei aquilo que eu quiser fazer, hoje eu vou passar a manhã agarrada em seu abraço e só. O que tiver de acontecer depois, será espontâneo e verdadeiramente simples.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ansiedade

''Eu gostaria que fosse diferente", tem sido a frase mais dita nos últimos tempos. A minha ansiedade não é só corporal, é verbal também. Mal da humanidade essa insatisfação contínua, que simula levar a algum lugar e não leva a nenhum. Estou ansiosa agora enquanto escrevo. Estou entediada com o tempo livre para fazer todas as coisas que planejei, mas sem conseguir fazer nada por completo. Vivo para fazer listas de organização, planejamentos, mas não faço nada. Começo um, largo no meio, me entedio fácil. Perco o interesse pelas coisas. Minha mente funciona numa velocidade infinita e permanecer no presente é a tarefa mais díficil. Vivo em busca de algo que não tenho e quando alcanço, mergulho pouco, logo arranjo outra coisa para desejar.  Nada tem me completado. Sinto saudades de viver de fato aquilo que eu faço, colhendo seus ganhos e danos, esquecendo o mundo lá fora. Estou tendo uma crise de pânico agora, meu coração está disparado. Quero ir embora daqui. Quero ir embora  de tudo. Não fico em nada, não paro em nada. Coisas que me pedem esforço, dedicação, coisas que exigem que eu pense muito, canse muito, me deixam exausta. Largo tudo pelo caminho e não estou conseguindo me encontrar neste olho do furacão. Quero largar esse texto pelo caminho agora por exemplo, estou cansada dele. Estou ficando louca, estou no ritmo do fracasso. Me arrependi de falar tanto que quero tudo, ao mesmo tempo e agora.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Oração

Oh pai, oh mãe terra, me abençoe. Permita que a energia do sol se transforme em fé pelo meu corpo. Que as minhas costas não sustentem mais o peso do hábito. Oh árvore da vida, me ensina a ter raízes profundas para sustentar o meu espirito flutuante, me ensina a respirar a vida que também corre no meu sangue. Sou feita daquilo que compõe o mundo. Sou feita de estrelas, lixo e gente. Sou feita, fui feita. Oh mãe que rege as águas fluídas e fortes, me explica a minha missão nisso tudo, pois meu corpo pede calma, alento. Meu corpo pede expressão.