segunda-feira, 22 de abril de 2013

Nos braços seguro
no ninho
no apego
tudo é sereno
tudo se prevê.
Estou saindo sozinha
sem guarda-chuva
quem me guarda?
A luz do sol.
Vem estrada,
chega a hora de caminhar
com meus pés
Já consigo conviver com o limite
Vou e vou com o vento
Mas, eu volto,
muito mais eu.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Eu posso suportar tudo,
o silêncio, a dor, a falta.
Eu posso sentir e aguentar
todo esse tempo.
Mas, por favor,
não suje a nossa água.

quarta-feira, 3 de abril de 2013


Os cronopios preferem o acaso,
Assim eu te encontrei.
Encontrei o que fingiu ter morrido em mim
Lágrimas, sangue, vontade de viver.
Preciso pular a janela
O mundo deu uma volta dentro de mim.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mãe,
me dê um banho de benção
gelada
salgada.
Pele na areia
pés no chão.
Mãe,
fortalece, levanta, cura.
Me protege.
No mergulho sinto o abraço
e ouço o seu "siga em frente"
Sigo mãe,
com seu beijo de sal e perfume de sol.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O indizível,
aquilo que se sente sem saber.
Aquilo que embola na garanta,
aperta o estômago,
aquilo que arrepia,
que dói  e chora,
dentro de mim.

Como um feto diante do novo mundo.
Prenderam meu viver
nas grades do verbo.
Nó atado e cego,
que nada alívia
a dor de existir.

Me leva para qualquer lugar,
só quero descansar,
Só quero contemplar teu sol interior,
Sou estrela que morre
e que sente falta do que não viveu.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A mulher do quadro

Ela levanta, o mar lhe espera: nua, leve. Talvez o amor esteja ao lado da cama. Talvez ela esteja mesmo sozinha. Nua em frente à janela de frente ao mar. Leve, livre, serena, eternizada em borrões de tintas claras. Presa em um quadro de tons azuis.

Será que ela existiu, enquanto o amor atrás dela pintava? Será que ele captou o sensível daquela linda mulher, nua, leve, vestindo o seu roupão em frente ao mar?

Com o olhar perdido, nublado, com o tocar sereno de quem pede um abraço, um beijo na nuca, um envolver-se em torno do teu ventre. Aquela mulher presa na parede é livre, aquela mulher nua em tintas e pincéis tem o mar só para si, eternamente. 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Dona Dodô

Ninguém sabia de onde ela veio ou sua história. Ninguém sabia quem ela era. Muitas fantasias e poucas verdades. Em um mundo que carece de mistérios, a invenção parece mais interessante. Dodô, era assim que a chamavam, morava em um velho prédio localizado no subúrbio mais abandonado da cidade. Um prédio caindo aos pedaços e com muitas escadas que energicamente ela subia e descia murmurando os seus delírios.

Cabelos grisalhos e longos apontavam uma vaidade desleixada. Suas mechas lisas e cinzas iam até a altura da cintura e me faziam pensar que ela era uma bruxa. Desde pequena, quando minha mãe me contava histórias que tinham bruxas, era o rosto de dona Dodô que eu via nestas personagens. Imaginava caldeirões e vassouras voadoras, gatos e poções espalhadas pela mesa da sala. Sentia medo, mas ao mesmo tempo grande interesse por aquela mulher. O tempo passou, ficaram para trás as histórias e os medos, no entanto, hoje tenho certeza: dona Dodô só pode ser uma bruxa.

A rotina de dona Dodô era simples, vivia sozinha com um gato preto, nunca recebia visitas e só saia de casa para fazer compras e dar o seu passeio solitário no final da tarde. Este passeio, que acontecia todos os dias religiosamente, me permitia observá-la melhor. Tinha a sensação de estar sendo invasiva por segui-la e ficar criando histórias para entendê-la. Mas, gostava desta sensação clandestina de ter um segredo que ninguém mais tinha.

Os seus passos eram leves, andava alienada do mundo, não via ninguém, não cumprimentava ninguém. Com certeza o seu mundo particular era muito mais interessante do que o dos outros vizinhos. Falava consigo mesma, em um idioma incompreensível, ria sozinha, reclamava sozinha, para todos era a louca do bairro, para mim o enigma da existência. Andava com roupas que me lembravam mulheres que frequentam igrejas evangélicas no domingo. Saias longas e blusas de manga. Será que Dodô era religiosa? Vai saber.
Um belo dia, eu reparei que ela estava usando uma aliança no dedo. Parecia estar feliz, prendeu os cabelos e saiu de casa mais cedo do que de costume. Cumprimentei-a como sempre e perguntei como quem esperava que ela me ignorasse: - Para onde vai assim tão bonita dona Dodô? Ela rispidamente respondeu-me: - Hoje é a minha lua-de-mel. E saiu flutuando pela rua.

Não resisti e a segui. Ela caminhava normalmente com uma felicidade que lhe era estranha. Parecia que tinha descoberto algo extraordinário. Para mim ela era a personificação do extraordinário, mas neste dia ela estava diferente. Não sei bem explicar. E aquela aliança, aquela história de lua-de-mel. Já ouvi muitos dos delírios de dona Dodô, suas viagens cósmicas, suas revelações apocalípticas, suas histórias sobre um tempo remoto em uma roça familiar, mas nunca tinha escutado na sobre casamento, amor e estas coisas que nos deixam andando abobalhados pela rua.

 No subúrbio há algumas praias, muito bonitas, mas pouco visitadas devido à distância ao centro da cidade. Dona Dodô, andava em direção à praia das loucas. Tinha esse nome, porque antigamente havia um hospício no terreno que hoje dá acesso a praia, e em algum dia algumas loucas fugiram para tomar banho de mar. De alguma forma, dona Dodô estava reproduzindo esta história, estava repetindo uma lenda. Dona Dodô sabia das coisas, ela era uma mulher sábia, eu tinha certeza.

Ela chegou à praia e ajoelhou-se em frente ao mar, rezou para algum ser do universo, em uma língua que eu não compreendia. Levantou e começou a despir-se sem pudor. Tirou primeiro a sua camisa de manga longa, exibindo seus seios grandes e enrugados e depois a saia que mostrava um corpo marcado pela velhice e pela solidão. Dodô deitou na areia molhada em frente ao mar, apertou os olhos e abriu as pernas, deixando a água penetrá-la. Pude ouvi-la gemer alto de prazer com a água tocando seu sexo. Dodô alucinava e sentia dentro dela a força do desejo do mar, como se fosse um homem. Como se fosse seu homem.

Dodô fez sexo com o mar, era a sua lua-de-mel.

Depois que presenciei aquilo, entendi porque Dodô era tão especial para mim, não necessitava de explicações ou histórias, ela era o que era e isto era atemporal. Louca ou não, bruxa ou não. Dodô era eu também, ela era a natureza e nada mais.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Carta para Clarice

Quando deixamos nossa marca em um texto, eternizamos a nossa alma, e dessa forma eu pude te conhecer. Nos encontramos, eu te encontrei, muitos anos depois do silêncio dos seus sentidos. No entanto, encontrei  você viva, com as inquietações mais pulsantes do que nunca. Comecei a beber da sua subjetividade bem depois de vomitar as minhas em linhas tortas. E foi um choque perceber que os desenhos das minhas letras vivas se pareciam os seus. A sua escrita fala pela minha e até o meu estilo de forma inexplicável, se parece com o seu. Mas como isso é possível, se só enxerguei tua força muito tempo depois de engatinhar na seara dos textos catárticos? Como esse encontro aconteceu com tanta afinidade e semelhança? Você é a mestra e eu humildemente ajoelho diante das suas escrituras. E de algum modo, mesmo sem conhecê-la acabo roubando sua obra sem saber que cometo um crime, sem saber sequer que tal obra existe e já possui dono. Assim como você, escrevo com o estômago, as vísceras, o útero. Escrevo com as entranhas os traços do cotidiano e talvez por isso, me identifique e te ame tanto, sem você sequer me conhecer.